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A Árvore de Abel

por: Carmine Goé



Olhei pela janela quando ainda era de manhãzinha e vi um pontinho verde andando no quintal. Tatá, a gatinha, estava feliz da vida brincando com o pontinho verde, e papai falou:


 — Putzgrila! A gata pegou um passarinho.


Corri pra cozinha. Minha nossa, nunca vi um passarinho no chão.


— É uma maritaca — papai disse. — Machucou a asa, eu acho.


O passarinho era pequeno e verdinho.


 — Deve ser palmeirense — mamãe falou, de brincadeira.


E por isso papai, que também é palmeirense, pôs nome nele de Abel Ferreira, o seu treinador favorito.


Abel ganhou uma gaiolinha da cor dele, com bebedouro de água, potinho de frutas e potinho de sementes.


— Eles gostam de sementes — contou papai. — Pegam elas, engolem e levam para outro lugar. E lá cresce outra árvore.


— Como que eles tiram as sementes da barriga depois que engoliram?


— Fazem cocô — disse papai.


— Fazem cocô? Cocô é sujo!


— É sujo pra gente, mas para as plantas serve de adubo. Ajuda a crescer. O mundo é cheio dessas coisas ambíguas…


Fiquei com a pulga atrás da orelha.


 — O que é ambíguas?


— É uma coisa que pode ser duas coisas ao mesmo tempo. O que é ruim pra um pode ser bom pra outro.


— Igual eu não poder dar chocolate pra Tatá: é bom pra criança, mas não é bom pra gatinho.


— Mais ou menos isso — respondeu papai, como sempre fazia quando eu estava quase certa. 


— Vamos dormir agora. Amanhã o Abel ainda vai estar aqui.


E eu fui.


— Bons sonhos — ele disse, beijando minha testa. E não é que deu certo?


Naquela noite sonhei com árvores e maritacas. Eu sabia que as maritacas eram barulhentas, muito barulhentas, e ficavam sempre juntas, logo que o sol nascia, brincando e voando.


— Começou a assembleia — disse papai uma vez, olhando pra elas enquanto tomava café em pé na porta da cozinha.


— O que é assembleia?


— É quando a gente se junta para decidir alguma coisa.


— Igual quando eu, você e a mamãe escolhemos se vai ser macarrão ou arroz?


— Mais ou menos isso.


No outro dia, mamãe me tirou da cama e fomos ver papai dar comida pro Abel.


— Parece que ele está triste — eu disse.


— Talvez esteja bem machucado. A Tatá deve ter pego ele com mais força do que eu pensei...


— Por que a Tatá fez isso? Ela é tão boazinha.


— É o instinto. Ela não pode evitar.


— O que é instinto?


— É uma coisa que fazemos sem nunca ter aprendido. Mesmo sem saber por quê.


— Igual ter vontade de comer quando dá fome?


— Mais ou menos isso.


Papai cobriu a gaiolinha do Abel com dois panos de prato.


 — É pra deixar ele quentinho. Na natureza, as maritacas ficam em bando. Dormem juntinhas. O Abel deve sentir falta do calor.


— Bando é como uma família? Igual eu, você e a mamãe?


— É mais ou menos isso.


Naquela tarde, papai e eu fomos ao parque que tem atrás de casa pra eu ver a família — ou o bando — do Abel.


Entre as folhas, todas as maritacas verdinhas, iguais ao Abel, ficavam bem escondidinhas. Mas dava pra ouvir a conversa.


— Estão fazendo uma assembleia — eu disse. — Será que estão falando do Abel?


— Tomara que sim — papai falou.


Voltamos pra casa.


Quando chegamos, mamãe chamou papai na cozinha e mandou eu ir ver a Tatá, que estava dormindo no meu quarto.


Desobedecer é feio, mas acho que por instinto parei no caminho e fiquei espiando. Não deu pra ouvir direito, mas mamãe disse algo ao papai e o abraçou. Cheguei mais perto e ouvi:


— Você fez tudo o que pôde. Vai lá e conta a verdade.


Corri pro quarto.


Logo depois, papai chegou.


Quando vi que ele estava triste, com os olhos cheios de lágrimas, disse pra ele não chorar — e não chorei —, porque numa família a gente apoia uns aos outros. Mamãe disse uma vez que apoiar é ver que o outro está triste e dar amor, mesmo estando triste também.


Papai enxugou a cara. Levamos o Abel de volta ao parque. A família dele apareceu todinha lá. E, mesmo parecendo ambíguo, houve uma grande festa dos pássaros, e todos aproveitaram as frutinhas que eram do Abel, e as sementes, e o bebedouro. Abel foi morar no céu, mas deixou muitos presentes.


Agora, todos os dias, papai e eu voltamos na árvore do Abel. Levamos comidinha. Ficamos um pouco e participamos da assembleia.


— Sabe o que significa essa gritaria, papai? — perguntei, já sabendo a resposta.


— Que as maritacas estão felizes — ele disse.


— Mais ou menos isso.


 
 
 

1 comentário


Um novo mundo sensível e de afeto, nasce quando observamos os animais e suas relações tão verdadeiras!

Conto que emociona e desperta em nós a intenção em ser calorosos e afetuoso com o próximo e a natureza!


Parabéns Escritor Eduardo Kaze, por trazer em palavras a sensibilidade de ser artista e conhecer da alma que carregamos! ❤️🎖

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©2023 por Eduardo Kaze

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