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Zhô Bertholini
4 de ago.0 min de leitura


Palavras abandonadas
Acontece de tempos em tempos e as justificativas são muitas. Aproximação cultural, simplificação do idioma, adequação aos novos tempos, mas, na verdade, é bom pra padronizar a língua em diversos países e vender livros. Alguém lucra, não sei quem. O fato, é que a cada nova reforma ortográfica nossa cidade cresce. A miserável e esquecida Cidade das Palavras Abandonadas, inflando e tornando-se irrespirável. Intragável. Parece que a Língua Portuguesa, a matriarca de toda a civili
Eduardo Kaze
4 de ago.5 min de leitura


Estações
Próxima estação, Mooca, anunciava o maquinista. Ainda faltavam duas estações para chegar à Luz. Tive sorte. O trem estava mais vazio, não sei se era o dia ensolarado, mas as pessoas pareciam mais felizes. Atípico, pois estava acostumada com os olhares perdidos, como se estivessem em transe e somente despertassem ao ouvir o nome de suas estações. Normalmente embarcava naquele trem lotado, a prova do descaso público, comigo, com as pessoas que ali, como eu, sobreviviam a cada

Vivi Silva
4 de ago.1 min de leitura


Primavera nos dentes
Diógenes já se acostumara com o pesadelo recorrente. Havia pesquisado o significado de sonhar com dentes caindo. Às vésperas do seu aniversário de cinquenta anos, no entanto, quando acordava para mais um dia de trabalho, a fronteira entre o sonho e a realidade foi rompida. Algo estava solto dentro da sua boca. Levantou da cama, com cuidado, para não acordar a esposa, Alma. Foi apressado para o banheiro. Poderia ter engolido um inseto durante a noite? Ao cuspir na pia, ouviu u

Mário Lukas
4 de ago.5 min de leitura


Por um triz
Eu perdoei, porém queria esquecer. Ele diz: você perdeu a confiança em mim e eu não sei o que fazer para conquistá-la novamente. Ele diz: eu estraguei tudo para você, né? Você pode não admitir, mas a culpa é minha sim. Pode ser que seja mesmo, mas quem escolhe a hora que vai desestabilizar emocionalmente? Não, eu não posso culpá-lo de nada disso. Odeio quando eu começo a me perguntar o que estou fazendo aqui. Sabe, há um tempo eu me convenci de que qualquer outra coisa é mais

Stella Maris
4 de ago.4 min de leitura


As nove letras
Eram quase nove da manhã. Havia nove dias que sua mente se afogava naquela palavra de nove letras: hipócrita. Ela ecoava nos cantos da casa, infiltrava-se nos gestos mais banais, repousava no silêncio como um móvel esquecido. Diante do espelho, confrontava o rosto amassado com a barba por fazer e a mente ainda vagarosa em planejar o dia, quando foi tomado pela lembrança. — Hi-pó-cri-ta. “Que petulante”, murmurou à casa vazia. E o eco, esse cúmplice da ausência, devolveu-lhe

Andressa Dantas
4 de ago.2 min de leitura


Não é descontrole, é poder
Quatro mulheres por dia. Assassinadas. Doze são as que sofrem alguma violência nas mesmas 24 horas e ousam notificar às autoridades, porque o número certamente seria maior. Aquela informação brotou da tela do seu celular enquanto o café esfriava. Leu várias vezes, porque certos números são difíceis de engolir. Tão entalada ficou a informação que perdeu o apetite. Como é possível chegar a esse ponto? Pegou sua bolsa e saiu para o trabalho. No trem, ouviu alguém dizer: Ele não

Isabela Veras
4 de ago.3 min de leitura


Sinfonia em silêncio
Allegro Eu não sabia como seria. Ninguém sabe ao certo. O certo é que seria. Iria acontecer aos poucos, de maneira quase imperceptível, disse o médico. Como ele poderia saber? Eu percebia. Todos os dias acordava e percebia a diferença. Por mais imperceptível que pudesse ser aos olhos da ciência, para mim era uma grande diferença. Todos os dias essa diferença estava lá, gritando dentro de mim. E não havia nada que pudesse ser feito. Ela se instalaria dentro de mim. Iria se aje

Marcos Lemes
4 de ago.4 min de leitura



Thina Curtis / Vagner dos Santos
4 de ago.0 min de leitura


Carol Cavesso e a voz que embala o Dharma
Era um céu laranja que coloria a noite em Santo André. Mas não havia nada de muito poético nisso. Ou se havia, faltou a este Jornalista essa percepção. Da janela do banco de trás do carro que me levava para a pauta, eu olhava para aquele céu e conseguia sentir ao invés de versos metafóricos e oníricos, todo peso de um Cidade suja, poluída, com perfume de monóxido de carbono misturado a cheiro de fritura e óleo diesel exalado dos carros. Era sábado 22 horas. Dez da noite. Na h

Marcelo Mendez
4 de ago.4 min de leitura


Lockdown em mim
Uma mulher com olhos de coruja me olha e me julga com carinho. Tem ao lado dela, noutra imagem, uma mão quase em figa, maior que a mulher, ancorando um rouxinol no dedo. Tudo em preto e branco e verde. Essa é minha vista no Bar, num dos grafites do Bar onde, daqui a pouco, irá tocar Artic Monkeys Cover. É onde estou. Ao lado, à esquerda, duas gueixas também me observam da parede. Gosto da indiferente e vibro pela boquiaberta que anseia qualquer experiência, qualquer paixão. N

Gil Gonzo
4 de ago.2 min de leitura


palavras, ai palavras
palavras, ai palavras sempre além aí, acolá dicionários recônditos escaninhos à espera dos poetas que nem sempre encontram o melhor atalho sem registro escapam fluídas água na fonte impossível represar palavras, ai palavras

Dalila Teles Veras
4 de ago.1 min de leitura


Flor da Noite
A flor da noite chegou Abrindo meu coração Com seu jeito genuíno A sua voz é canção Traz brilho pra minha vida Me encanto com sua mão A sua pele macia Igual a ceda e algodão O seu abraço caloroso É grande constelação Trazendo pra minha vida Um grande amor e paixão Porque nós dois somos um O nosso amor não tem fim Somos o grande universo Maior que o imenso jardim Você é minha razão Sem ti que será de mim

Cosme Oliveira dos Santos
4 de ago.1 min de leitura


Na faixa
Na faixa Na do asfalto Não a de Gaza Naquela da via Onde a vida Corre e transita Entre luzes e sombras Na Fanzinada diária De delitos alheios Onde tá cheio De gritos e risos De sirene e pânico Donde sai tio Sobrinhos sai tiros Sozinhos ouvindo gritos Sombrios no pânico De mais terror Eminente cheio gente Tá cansado Exausto Mas segue na linha Da corda bamba Balança igual bambu E não enverga Vítima disso Vivemos Embalados

Luana Nascimento
4 de ago.1 min de leitura


Lenda e mito ao pé da serra
Paranapiacaba, a famosa vila inglesa. Paranapiacaba, lenda e mito ao pé da serra . O local sagrado dos tupiniquins. Do alto gritavam:” de onde se vê o mar..”. Uma das três saídas do Peabiru. A trilha do oeste ao ouro do Peru. Eis que um mero degradado, o português João ramalho, subiu o rio Mogi trazendo a Bíblia e a escravidão... Paranapiacaba, a famosa vila inglesa.Paranapiacaba, lenda e mito ao pé da serra. Símbolo pungente do ciclo do café. A estrada de ferro Santos/Ju

Felipe Bigliazzi
4 de ago.1 min de leitura


reality horror
a corrupção nossa de cada dia o amanhã não está mais ali lá se vão as utopias sonhos sequestrados assim tropeça a humanidade verdades e não verdades nada é o que parece tudo se sabe ou pressente quase nada se aprende assim tropeça a humanidade frágil equilíbrio o peso do ser ou não ser aqueles que se acham espertos manipulam a vida e a morte assim tropeça a humanidade todos confinados num imenso reality show sem vencedores sem prêmio de consolação assim tropeça a humanidade

Jurema Barreto de Souza
4 de ago.1 min de leitura


Poema para destruir o Sistema por dentro
Chiclete preso na sola do calçado abate o passo fisgado, troço a pouco mastigado, cor de rosa, oco, recheado ruminante ruminante ruminante ruminante Qual palavra dividiu o espaço na boca qual hálito encontrou, almoçado, não almoçado, tinha raiva ou apenas ruminava de lábios cerrados o silêncio artificialmente perfumado, tinha gosto?

Mateus Novaes
4 de ago.1 min de leitura


Show da Vida
O show tem que continuar... não importa o que vai na alma, ou sente o coração, não importa como nem por quê, se não conseguir sorrir diga X Coloque a máscara siga adiante vista seu personagem não pare, pois... O show não pode parar. Se for comédia: sorria, se for tragédia: chore, represente sempre não pare nunca. Não importa o que vai na alma no teatro da vida é assim. Não importa o que sente o coração o importante é que O show “sempre” tem que continuar...

Kéca Cecílio
4 de ago.1 min de leitura
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