Primavera nos dentes
- Mário Lukas

- há 1 dia
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Diógenes já se acostumara com o pesadelo recorrente. Havia pesquisado o significado de sonhar com dentes caindo. Às vésperas do seu aniversário de cinquenta anos, no entanto, quando acordava para mais um dia de trabalho, a fronteira entre o sonho e a realidade foi rompida. Algo estava solto dentro da sua boca. Levantou da cama, com cuidado, para não acordar a esposa, Alma. Foi apressado para o banheiro. Poderia ter engolido um inseto durante a noite? Ao cuspir na pia, ouviu um barulho desagradável. Um dente. Rodou pela cuba de porcelana e foi-se pelo cano.
Perplexo, forçou-se a cumprir o seu ritual diário que, imaginava, o traria de volta à normalidade. Quem era o senhor que o encarava de volta no espelho? Muito magro, calvo, o resto dos cabelos nas têmporas quase totalmente branco.
Tinha uma esposa boa e atenciosa, mas a sua vida seguia estagnada. Trabalhava em um escritório há mais de vinte anos, sem qualquer expectativa de promoção. O emprego estava longe de satisfazer suas necessidades financeiras ou trazer algum sentimento de realização. Saía muito cedo e chegava muito tarde, sem tempo para a vida social ou familiar.
Por isso, todos os dias de manhã, engolia a tristeza e forçava o sorriso mais convincente que conseguia. — Sorria, Diógenes! — Hoje, porém, a tarefa estava muito mais difícil: faltava-lhe um incisivo central, perdido da forma mais bizarra. O sorriso teria que ser de boca fechada.
Seguiu a sua rotina normal: sorriu ao bater o ponto. Sorriu ao cumprimentar os colegas. Mesmo os invejosos e os fofoqueiros. Sorriu ao almoçar, sozinho, no refeitório da firma. Sorriu quando ficou “umas horinhas” a mais, para terminar um relatório “urgente”. Sorriu na volta para casa, o único sorriso sincero do seu dia.
Alma já estava dormindo. Esquentou o jantar ressecado. Finalmente pôde desarmar o maldito sorriso, quando foi escovar os dentes. A esta altura, as maçãs do rosto já doíam. Permitiu-se fazer uma careta, com a sensação da escova se enroscando no vão deixado pelo dente caído.
Acordou às três da manhã, com um grito emudecido na garganta e lágrimas nos olhos. O sonho voltou e, agora que sabia que podia se tornar realidade, a sensação de horror que ele trazia era muito maior. Dessa vez, em vez de cuspir, segurou o dente. Era o outro incisivo central. Passou a língua pela grande falha que agora era o centro do seu forçoso sorriso.
Quando a manhã chegou, dessa vez, não conseguiu completar o seu ritual. Se esforçou para esboçar um sorriso, em vão. Quebrou o espelho antiquado com um soco. A barulheira acordou Alma, com uma mistura de confusão e susto. O marido sempre se arrumava para o trabalho e saía silencioso para não acordá-la.
— Diógenes, o que foi?
— Nada, meu amor, volte a dormir, está tudo bem.
Mas não estava. Ele não podia colocar o seu sorriso antes de sair para a luta diária.
Diógenes não sorriu. Não sorriu ao bater o ponto, nem ao cumprimentar os colegas. Almoçou sozinho e carrancudo. Estava, inclusive, com dificuldades de trabalhar. Só conseguia pensar que o frágil equilíbrio que mantinha a sua vida em movimento havia sido abalado irremediavelmente.
Após o intervalo do almoço, enquanto pesquisava no computador qual poderia ser a causa do seu misterioso e repentino mal, sentiu novamente escorregar de sua gengiva, descendo pegajoso para a sua língua. Cuspiu na mão para confirmar: tinha perdido mais um dente.
O desespero começou a se formar como uma pressão atrás dos olhos. Massageou as têmporas. Tamborilou na mesa com os dedos. Enxugou o suor da testa nas mangas da camisa.
Levantou o olhar para o computador. Seria possível? Ele não acreditava em sinais nem nada do tipo. Mas na tela, um anúncio pop-up colorido dizia: “Madame Nomisma, feiticeira. Curas, tônicos, malefícios, sortilégios, amarrações. Atendimento discreto e resultado garantido.”
Naquela tarde, a cadeira de Diógenes ficou vazia. Nunca tinha acontecido antes, mas, mesmo assim, passou despercebido pelos colegas da empresa.
O “consultório” da feiticeira dava arrepios. Passou pelas cortinas que separavam o ambiente da recepção e a salinha privada onde eram feitos os trabalhos. Um cheiro pungente de terra, mofo e ervas invadiu-lhe as narinas. A penumbra e a fumaça dos incensos davam um ar solene, mas profano. Olhou por sobre o ombro para a escuridão opressiva no limiar do cômodo antes de fitar a figura à sua frente.
Do outro lado da mesa, sobre a qual se estendiam, em seda preta, as cartas do Tarot cigano, a velhinha vestida de luxo e decadência, perguntou a Diógenes se ele estava confortável com a solução que ela oferecia.
— Tem certeza? — sorriu, travessa.
Diógenes assentiu, mas lhe faltava convicção.
— Tenho, pode fazer.
— Vou advertir, então — Nomisma ergueu o dedo fino — uma vez feito, não haverá retorno nem arrependimento.
Aquela foi uma noite sem sonhos para Diógenes. A bem da verdade, ele mal se lembrava de como havia chegado em casa depois da sessão bizarra com a bruxa. Ao acordar, saltou da cama e correu para o espelho. Só podia ser um milagre! Lá estavam eles. Todos os dentes de volta ao seu lugar. A musculatura da face fez o movimento usual e o velho e conhecido sorriso estava de volta.
O dia seguiu sem percalços, mas tão logo as primeiras horas da manhã passaram, Diógenes voltou aos suspiros letárgicos e melancólicos de sempre. A máscara do sorriso, no entanto, continuava lá, impassível.
A noite foi intranquila, entrecortada por sonhos agourentos. Ao acordar, sentiu, mais uma vez, um corpo estranho entre as bochechas, acompanhado de uma dor atordoante. Foi ao banheiro, confirmar a sua tragédia. Um calafrio subiu a sua espinha até a base da nuca. Ele abriu a boca e das suas gengivas, onde deveriam estar os dentes, surgiam, dolorosamente, em meio ao sangue e à saliva, brotos! Pequenos galhos cresciam. Caules verdejantes rompendo a carne rosada da sua cavidade bucal. Espinhos que rasgavam lentamente o tecido quando despontavam e, na ponta, um elegante botão carmim.
— AAAH!
O grito desesperado, desta vez, não acordou apenas a pobre esposa, mas ressoou pelo quarteirão todo. Diógenes caiu, desmaiado.
Alma dificilmente sorria. Sempre preparava o café da manhã em silêncio. A solidão era uma constante. Naquele dia, no entanto, não havia a calmaria de costume.Os gemidos de Diógenes no fundo do quarto estavam enlouquecedores. Há dois dias ele estava prostrado na cama. Não comia, não falava. A vistosa roseira que agora brotava de suas mandíbulas e chegava quase até o teto do quarto, parecia se alimentar da sua força vital.
Não sabia o que fazer. O marido gemia dia e noite, mas não permitia que tomasse qualquer atitude. Sacudia violentamente a cabeça quando ela sugeria chamar um médico. Cada vez que isso acontecia, os espinhos da roseira feriam suas bochechas, sua língua, sua boca. O sangue escorria em filetes sobre a fronha branca, e ele gemia mais e mais alto.
Mesmo com o olhar esbugalhado, Diógenes percebeu o sofrimento da esposa. Entre esgares dolorosos, apontou o paletó, sobre uma cadeira que servia de “cabide”, perto da cama. Do bolso, despontava um pequeno papel. Era um cartão. Nele estava escrito: “Madame Nomisma” e um número de telefone.
Uma voz calma atendeu, contrastando com o gaguejar da pobre Alma. Juntando toda a sua coragem, exigiu uma solução daquela que, supunha, tinha sido responsável pelo milagre macabro. A feiticeira, antes de desligar, apenas selou a sentença:
— Mas o sorriso dele não está lindo? Foi isso que ele me pediu.
Agora, na rua B da quadra 66 do Cemitério São Cipriano há uma lápide. Uma roseira cresce bem ali em frente à lajezinha de mármore preto. No epitáfio, uma última homenagem: “Aqui jaz Diógenes Peixoto, dono do sorriso mais lindo que já se viu.”
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