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Por um triz


Eu perdoei, porém queria esquecer. Ele diz: você perdeu a confiança em mim e eu não sei o que fazer para conquistá-la novamente. Ele diz: eu estraguei tudo para você, né? Você pode não admitir, mas a culpa é minha sim.

Pode ser que seja mesmo, mas quem escolhe a hora que vai desestabilizar emocionalmente? Não, eu não posso culpá-lo de nada disso.

Odeio quando eu começo a me perguntar o que estou fazendo aqui.

Sabe, há um tempo eu me convenci de que qualquer outra coisa é mais urgente do que um coração quebrado, que esses sentimentos são frescuras. Eu me pergunto, qual a opinião dos outros sobre isso? Diferenciam apego de tesão? Estar carente de estar gostando? Estar confortável de estar feliz? Quando sabemos que amamos outra pessoa?

Eu peço que ele abaixe a voz. Funciona por dois minutos. Eu peço de novo, ele fecha a cara, como se eu estivesse prestando mais atenção no volume do que no conteúdo. Ele parece ter esquecido de algumas coisas: a conversa é entre nós dois, não tem necessidade de se fazer ouvir pelos outros, principalmente quando sabemos que há aqueles que desejam um pouco de maldade para o nosso lar. Eu me desligo quando começam a levantar a voz para mim. E eu disse que se isso acontecesse, eu iria embora. Já é a segunda vez, e eu fiquei. Por quê?

Ele diz que eu perdi a confiança como se essa perda fosse unilateral. Ele desconfia de mim muito antes, mas eu não posso tocar nesse assunto. Cada vez mais eu sinto como se minhas emoções fossem o suficiente para manipular a conversa a meu favor, fazendo um gaslighting involuntário (involuntário?). Eu parei de esperar o momento de falar. Eu escuto e escuto, mas nunca é o suficiente.

As conversas atrapalham nosso sono. É madrugada. É como se nenhum de nós precisasse acordar cedo no dia seguinte. Continuamos entre tolerância e medo, entre tentar entender e acusar, retirar a acusação, você ainda me ama? Sim, com certeza. Vamos passar a vida juntos.

Ninguém disse que casar era fácil. Ao longo da vida eu acompanhei as histórias dos adultos: divórcio dos pais dos amigos, histórias de traição com a melhor amiga, com a aluna, com a colega de trabalho, os amigos que cresceram com os pais separados, com boas relações e com relações insustentáveis; as relações por um triz por conta de um alcoolismo ou outros vícios, por conta de um câncer... Ainda assim, com todas essas histórias por perto, fora aquelas representadas em forma de entretenimento pelas mídias, a gente pensa: vamos casar. É uma ótima ideia.

Eu penso em terminar e parece que estou considerando arrancar um braço na faca sem necessidade alguma. Eu penso em terminar e meu peito dói, o rosto dele contorcido em sofrimento que eu imagino é um soco no estômago, eu não consigo. Não sei se é isso o que eu quero, mas tenho certeza que não quero abandoná-lo. O mal estar é bem real. Ao mesmo tempo, tenho medo de permanecer só porque esse era o plano e mudar agora seria injusto. Injusto? Não encontro a palavra. Arriscado? Vergonhoso? Com certeza sofrido. É verdade que não tenho para onde ir daqui, mas isso não é motivo para ficar. O amor ainda existe, mesmo que a chama esteja fraca. Nunca vi um relacionamento não passar por um teste de resistência. Comparado aos que eu já presenciei, minhas dúvidas e nossa falta de confiança um no outro neste momento parecem banais.

Antigamente as pessoas literalmente morriam de amor. Estar apaixonado sem ser correspondido adoecia. Dos livros que li, parece que as pessoas não faziam pouco caso desses casos. Coração partido já foi um diagnóstico, mas no século XXI começamos a entender como frescura. Só vou dizer uma vez: não acho saudável se prender a uma pessoa, principalmente se você não é correspondido. O devaneio não é esse. O devaneio é se essas dores causadas pelo coração ainda são válidas, ou se temos a tendência de descartar essa parte por conta de um colapso econômico, novas doenças, guerras, o medo constante de não voltar para casa por causa de um celular. Numa realidade onde o medo e a ansiedade prevalecem, o que fazemos com o amor? Ele pode ser reconhecido, espalhado, cultivado? Ele precisa ser exclusivo? O romântico vale mais que a amizade, ou vice e versa?

São três da manhã e tem alguém dormindo na nossa sala. Isso não o impede de sugerir algumas coisas vis sobre mim, de dizer que o que temos não parece mais especial, de dizer coisas contraditórias que não fazem sentido na minha cabeça. Eu não respondo. Não consigo formular uma resposta. O nervosismo causa a pior reação possível, o absurdo me faz rir enquanto lágrimas se formam nos meus olhos. Eu penso, ele vai embora. Eu penso, de tudo o que ele está me dizendo, é muito claro que eu deixei de fazer bem há tempos. É frustrante me amar, deixou de ser reconfortante. O ponto é: isso é sustentável?

A manhã seguinte começa pesada. Ele se sente ansioso, a cabeça martela a crueldade das palavras que ele jogou na minha cara, ele pede desculpas baixinho na beira da cama, sem olhar para mim. Depois se deita e encara o teto. Ele já está atrasado, mas não consegue sair da cama. Ele se irrita porque parece que o corpo não parece seguir o cérebro. Ele está triste; o pau está duro. Eu me sinto exausta da conversa violenta, mas no momento ainda não processei absolutamente nada. É como se não tivesse acontecido. Minhas manhãs contam com uma mente suspensa onde eu juro que qualquer coisa que foi um problema no dia anterior simplesmente não importa mais. Eu abaixo a bermuda e lubrifico as mãos. Ele cede. Depois, ele diz: eu quero muito passar o resto da vida com você. Meu sorriso não chega até os olhos. Eu sussurro que também, minha voz quase falha. Eu penso: um, dois, e eu fiquei. Mas na terceira, eu vou embora.

 
 
 

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