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Não é descontrole, é poder

4 de ago.
3 min de leitura


Quatro mulheres por dia. Assassinadas. Doze são as que sofrem alguma violência nas mesmas 24 horas e ousam notificar às autoridades, porque o número certamente seria maior.

Aquela informação brotou da tela do seu celular enquanto o café esfriava. Leu várias vezes, porque certos números são difíceis de engolir. Tão entalada ficou a informação que perdeu o apetite. Como é possível chegar a esse ponto?

Pegou sua bolsa e saiu para o trabalho. No trem, ouviu alguém dizer: Ele não conseguiu se controlar, e Joana acabou morrendo. Mas também, ela vivia dando trela pra todo mundo. Ele, sem nome; o dela, escancarado em um letreiro de julgamentos.

Lembrou-se de tantos outros corpos femininos violados por homens naquele mês: um bebê em casa, uma idosa no ônibus, uma freira num convento, uma paciente num hospital, sem falar dos estupros coletivos filmados e transmitidos como se fossem um troféu de virilidade exibido para o círculo da masculinidade. Será que todos esses homens perderam o controle, tiveram um surto, um rompante, talvez?

Ao pegar o elevador, ouviu um engravatado dizer: Maria acabou com a vida dele. Falou pro delegado que ele a espancou. Viviam brigando. Ela é daquelas barraqueiras mesmo.

Ficou claro que nenhum desses casos era acidente. Não era desvio. Era quase uma rotina. Chamar de descontrole é quase um alívio coletivo, sugere acaso, e o acaso não exige enfrentamento estrutural, nem mudança, nem mesmo revisão de valores. Existe um tipo de inteligência nisso. Um cálculo. Não se trata de perder o controle, mas de saber exatamente quando usá-lo. Contra quem. Em quais circunstâncias. Com quais garantias de silêncio. É dominação.

Voltou seus pensamentos a outros fatos e indicadores que leu pela manhã: a maioria esmagadora dos abusos acontece dentro de casa e por pessoas conhecidas.

Lembrou de um amigo médico de seu pai que, numa festa, sentou ao seu lado e passou a mão entre suas pernas, com um sorriso que não se desfez nem com a chegada de alguém. Apenas se levantou, contando uma piada que ela não entendeu, e que não teve graça alguma.

Abusador não só exerce o controle, como não tem cara. É mais fácil acreditar nessa figura construída do que na dor que desmonta essa imagem.

Sorria pouco. Andava sempre com passo apressado. Vestia roupas que cobriam a maior parte do corpo. Tinha medo. Medo de pegar elevador com um desconhecido, de andar sozinha na rua, de chamar um Uber, de pegar o trem, de ser seguida. Desconfiava de tudo e de todos.

Atravessada por este assombro, entendeu por que uma mulher deve ser frágil, delicada, sem força física, não deve falar alto, precisa seguir as regras, não ter pelos ou rugas, como uma criança, cuidar, ensinar, dar conta dos afazeres domésticos. A fizeram acreditar que era insuficiente e que precisava dar conta de tudo. Quanto mais cansada, mais valorizada ela era. Afinal, se fosse forte fisicamente, se divertisse, saísse com quem tivesse vontade, falasse o que pensava, fosse independente, seria difícil de ser subordinada e, por isso, seria mal-vista. Ela era o objeto principal manipulado por esse sistema.

Agora compreende porque foram poucos os homens que a atraíram a ter um maior envolvimento. Descobriu que, muitas vezes, a desconstrução era capital social de um pseudodiscurso. Sua amiga lhe abriu os olhos sobre o último com quem se envolveu. Ele pedia que ela o ensinasse a ter o discurso feminista perfeito, mas, na prática, usava isso para atrair outras mulheres, as quais objetificava como qualquer um daqueles homens que dizia não ser. Queria aplausos por lavar uma louça, por levar um filho à escola ou ao médico, cuidar da casa e não ser violento, queria louros por fazer o mínimo de um adulto funcional.

Estava cansada. Cansada de sentir medo. Cansada de explicar para homem como não ser um idiota. Cansada de pensar na roupa que ia usar. Em como ia se comportar.

Percebeu que não cabia a ela ensinar aos homens ou escrever qualquer manual. Estava CANSADA. Se não conseguem reconhecer o próprio machismo, que procurem um psicanalista. Que aprendam a se entender. Chamar a atenção do “brother”, não se omitir, quebrar o silêncio e questionar o sistema que os privilegia, já seria um bom começo.

Era hora do almoço. Sentou para fazer sua refeição e a cada garfada sua fome crescia. Mastigava cada pedaço de carne com vontade, com força, como quem aprendeu a triturar o que antes descia atravessado. Dali em diante, fortaleceria sua rede unindo-se a outras mulheres, sendo apoio uma das outras. Nada mais ficaria entalado em sua garganta. Não iria mais se calar, nomearia cada violência, pavimentando mais um pedaço do caminho de luta por uma sociedade menos desigual, iniciado pelas que vieram antes. Ofereceu aquela refeição a todas elas. Porque cada nome que tentaram apagar virou estrada.

 
 
 

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