Lockdown em mim
- Gil Gonzo

- há 1 dia
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Uma mulher com olhos de coruja me olha e me julga com carinho. Tem ao lado dela, noutra imagem, uma mão quase em figa, maior que a mulher, ancorando um rouxinol no dedo. Tudo em preto e branco e verde. Essa é minha vista no Bar, num dos grafites do Bar onde, daqui a pouco, irá tocar Artic Monkeys Cover.
É onde estou.
Ao lado, à esquerda, duas gueixas também me observam da parede. Gosto da indiferente e vibro pela boquiaberta que anseia qualquer experiência, qualquer paixão.
Não costumo ficar neste banco quando venho ao Bar — escolho a mesinha ao lado, também na área externa, mas... foi por acaso, pela chuva, que escolhi este: sob a cobertura da calha do telhado, onde está seco. E é a partir desta vista que relato os olhares das minhas admiradoras inanimadas.
Hoje é dia 5 de agosto de 2022. A pandemia fingiu que acabou, minha namorada e eu terminamos, perdi meu emprego e arranjei outro e perdi também e, agora, com o último salário, fui ao mercado e me aprontei e me achei bonito e falei: esta noite eu vou sair!
Comprei uma dose de Red, caprichada, e duas fichas de chopp, pra começar. Dois becks no maço — já fumei metade de um — e penso em, quando estiver bêbado, comprar uma garrafa de vinho.
Essa hora chega rápido.
Estou na minha primeira taça dos 750 mls do Bordô do Frade, safra de antes de ontem, exclusividade da casa.
Fumo um pouco mais. Viajo para longe, bem longe... para dias de confinamento compulsório; dias sem paladar, olfato; baixa oxigenação...
Sobrevivi, cheguei aqui onde uma banda cover se apresenta.
O cover é, penso eu, resposta a uma pergunta que nos fazemos quando encantados: como seria isso, se isso fosse feito por mim? Esses aí botaram a ideia à prova. O Artic Monkeys de hoje manda bem. Mas não o bastante.
Imitações me entristecem...
Outro beck. Uma cerveja que não aguento terminar, e sigo de volta para casa levando o copo roubado... sozinho, de novo.
Sempre, de novo...
O lockdown não acabou
— em mim.
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