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Palavras abandonadas


Acontece de tempos em tempos e as justificativas são muitas. Aproximação cultural, simplificação do idioma, adequação aos novos tempos, mas, na verdade, é bom pra padronizar a língua em diversos países e vender livros. Alguém lucra, não sei quem. O fato, é que a cada nova reforma ortográfica nossa cidade cresce. A miserável e esquecida Cidade das Palavras Abandonadas, inflando e tornando-se irrespirável. Intragável. Parece que a Língua Portuguesa, a matriarca de toda a civilização de palavras residentes no Brasil, tem mais ou menos 400 mil verbetes. É verbete pra chuchu, mas no mundo aí de fora, aí onde você está agora, cada pessoa sabe, em média, apenas 1500. Eu sou o Detective e estou aqui por causa deste terrível “C” que me corta ao meio. As pessoas daí de fora não me usam mais, portanto, minhas aventuras chegaram ao fim. “The end”, diriam no reino da Língua Inglesa, lugar no qual eu ainda teria utilidade. Mas não é assim que a banda toca e o Detective do Dicionário Inglês ficaria mordido comigo se intrometendo nos negócios dele.

A aposentadoria é um saco! Hoje, por exemplo, encontrarei amigos para jogar cartas, igual semana passada, e na outra, e na outra... Pingüim estará lá, com a patética trema sobre o “U”, parece que está sempre sorrindo. Dois olhinhos sobre uma boca arqueada e feliz. Não me admira que tenha sido banido! Em contrapartida, ninguém nunca sabe quando ele está blefando, então é imbatível no pôquer.

O ranzinza Conflicto, excluído do Dicionário pelo mesmo “C” incomodo que me persegue, vem sempre às partidas. Sua convicção é que banir as palavras estrangeiras de nosso idioma é a solução. “Chofer, Abajur, Chique, Charme... Estão tomando nosso lugar e ninguém vê! Temos que deportar esses aproveitadores. Vocês acham que eu sou fatalista, mas pergunta para o Cardápio se ele é amigo do Menu! Eu duvido!”, repete ele, encontro após encontro.

2

Quarta-feira, 19h, dia e hora do carteado. Nesta semana, a mesa será na casa do amigo Quiproquó que, apesar de não ter sido banido, ficou tão sozinho que decidiu se juntar a nós. E, sendo a confraternização na casa do Quiproquó, podemos esperar confusão.

À noite, as ruas da Cidade das Palavras Abandonadas são escuras e úmidas, como se um vapor vindo de sabe-se lá onde deixasse a vida parecendo um sonho, tudo é nublado e pouco nítido. “Isso é a neblina, sua besta”, me disse certa vez Conflicto; eu sei que é, mas o negócio do sonho é mais romântico, e eu sou um romântico...

Sigo pela calçada, coberto por meu sobretudo, lutando contra o vento e o frio, praguejando como um marinheiro, quando chega a dupla mais miserável da cidade, os vagabundos locais, Obséquio e Carraspana. “Dá um trocadinho aí, seu Detective”, pede Obséquio. “É pra gente comer”, afirma Carraspana. Entrego umas moedas.

Mãos no bolso, lapela levantada, e bola pra frente. Faltam dois quarteirões e já imagino a grana que posso levar hoje nas cartas. Não me sinto especialmente com sorte, mas tenho a sensação de que algo está por vir, para o bem, ou para mal.

Meus pensamentos gananciosos são interrompidos pela chegada abrupta de um carro que freia ao meu lado. “Hei, Detective. Ficou sabendo da última?”, alguém diz de dentro do automóvel. Me aproximo e reconheço meu antigo chefe, o Comissário, hoje substituído pelo Delegado que, claro, tem um Detetive sem “C” à disposição. A última vez que encontrei o Comissário foi no dia da minha demissão. “Te pegaram na reforma, Detective!”, disse ele. “Com esse ‘C’ no meio, você não trabalha mais. Arranjaram uma versão mais nova de você, sinto muito”.

Não demorou para que o Comissário entrasse também em desuso e partilhasse do mesmo destino que eu: ser substituído. As chances dele voltar a ser o que chamam de “palavra comum”, claro, existe — às vezes ele até é usado, numa história em quadrinhos aqui, outra ali…. De qualquer forma, vai ser difícil ele pegar de volta o lugar do Delegado. “Comissário”, por fim, nem descreve tão bem a função de chefe da polícia, que não é uma “comissão” há muito tempo. Por fim, lhe dou abertura, deixo contar a fofoca — ele adora isso.

“O mundo externo está um perereco, sabia? Sabe nada! Você virou um desses aposentados moribundos, vagando de jogatina em jogatina. Mas eu estou alerta...”

Alerta e chato, eu penso.

“... mantenho minhas fontes…”

“Conta de uma vez, catzo!”

“Tá saindo ainda com aquela palavra italiana, né? Deixa o Caralho descobrir que você está usando Catzo…”

“Mas que merda, fala logo, qual é essa última?”

“O Não sumiu”, começa o Comissário, “e as pessoas estão aceitando as coisas mais esdrúxulas. Parece que o único sinônimo de ‘Não’ é ‘Negativo’, mas quase ninguém sabe, então, noite passada, me contaram, uma mulher quase morreu sem conseguir negar que colocassem picles no seu hambúrguer. Acontece que ela era alérgica a picles, dá pra imaginar?

“Teve um cara que faliu porque aceitou incessantemente serviços da operadora do celular oferecidos pelo telemarketing!

“Há relatos de crianças comendo legumes dados pela mãe até explodirem. Círculos intermináveis de pechincha... É um caos completo!”

Nunca ouvi falar de uma palavra fugitiva. Somos excluídas, banidas, esquecidas, mas nunca abrimos mão de existir por vontade própria. O que o Não estaria passando agora? Nasce em meu estômago, no fundo do meu C, algo que me sobe a espinha e bate no cérebro. Acho que é curiosidade.

Deixo o carteado pra lá e vou visitar a casa do Não, ver o que está acontecendo com esse velho amigo. De fato, ele sempre foi bastante mal visto, pobre coitado. Nunca é recebido com alegria. É o terror dos casamentos; inimigo número um dos convites; dizem dele as piores coisas e o confundem com insensibilidade…

Uma injustiça, no meu ponto de vista! O Não é sincero, sabe de si e dos próprios desejos.

3

Chego e a porta está destrancada. Não há sinais de luta, nem móveis revirados, nem qualquer vestígio de fuga apressada. A casa está… ocupada por frases. Espalhadas pelos cômodos, encostadas nas paredes, empilhadas sobre a mesa, presas nas maçanetas como bilhetes de última hora.

“Depois a gente vê.”

“Qualquer coisa eu te aviso.”

“Vamos nos falando.”

Entro com cuidado, desviando do Talvez estirado no corredor, bêbado de tanto uso. Na sala, encontro um “deixa comigo” arrotando glória. Na cozinha, “eu te digo” floresce na fruteira.

“Não?”, eu chamo. “Está por aí?”

No quarto, sobre a cama arrumada demais para quem partiu às pressas, encontro o bilhete. Sem assinatura, sem data, sem dramatização — como tudo o que diz respeito a ele.

Leio:

“Cansei de chegar atrasado.”

Fico um tempo parado, com o papel na mão, tentando entender se aquilo é uma despedida ou uma acusação.

Volto à sala. As frases continuam ali, funcionando no lugar dele, todas muito educadas, muito compreensivas, muito… irresolutas.

Deixo as coisas como estão…

No caminho de volta, o celular vibra. Mensagem do Quiproquó:

“E aí, vem pro carteado?”

Paro na calçada.

Penso no caos lá fora.

Penso no papel da vontade.

Penso nessa rotina que finjo gostar

e sigo,

sigo,

sigo...

Também tenho culpa! Me deixei conquistar pelo desuso. Deixei o cara ali, apartado, meu camarada...

Penso em tudo isso e, pela primeira vez em muito tempo, respondo o que realmente quero.

Não!

Não vou manter o fluxo hoje!

Não vou ao carteado!

NÃO!”

Olho a palavra na tela, esperando um estrondo, uma sirene, o fim do mundo…

Nada.

“Ok”, diz Quiproquó.

A vida continua. O carteado, as palavras... seguem sem mim.

Guardo o aparelho.

Reinvento meu destino.

É tudo um silêncio limpo.

 
 
 

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