Sinfonia em silêncio

Allegro
Eu não sabia como seria. Ninguém sabe ao certo.
O certo é que seria.
Iria acontecer aos poucos, de maneira quase imperceptível, disse o médico.
Como ele poderia saber?
Eu percebia.
Todos os dias acordava e percebia a diferença.
Por mais imperceptível que pudesse ser aos olhos da ciência, para mim era uma grande diferença.
Todos os dias essa diferença estava lá, gritando dentro de mim. E não havia nada que pudesse ser feito.
Ela se instalaria dentro de mim.
Iria se ajeitando, tomando o espaço, até o dia que mudaria de vez e habitaria meu ser.
Irreversível, todos eles disseram.
Nessas horas eu pensava em algo bem trágico, como Otello, de Verdi.
(Pausa)
Essa questão da precisão das notas, da execução técnica, sempre me chamou a atenção.
Tudo isso sem emoção torna a música vazia.
O virtuosismo excessivo pode ser o grande inimigo da boa música.
Ela tem mais a oferecer do que um amontoado de notas e cifras e pautas e colcheias e...
Não trabalho com música, não sou músico, não canto, nem toco nenhum instrumento. Mas tenho ouvido para música, dizem.
Eu sinto que tenho uma relação íntima com ela, uma necessidade, um encontro de almas. Minha conexão com o mundo é feita através dela.
Tenho a impressão que todos nós vamos criando trilhas sonoras para a nossa vida. Uma trilha que faz todo o sentido com cada momento vivido. Cada momento me faz pensar na música exata que cabe naquele momento.
(Pausa)
De repente eu ouvi um zumbido estranho. Uma interferência naquele som magistral.
Limpei o CD, o tocador de CD. Nada.
Mudei de aparelho. Sem sucesso.
Mudei para o pen drive.
Aquele zumbido intrometido ainda estava lá. Poluindo aquela paisagem sonora perfeita. Deformando o Adagio de Puccini.
Aquele ruído...
(Pausa)
Quando deitei para dormir, foi que percebi que o zumbido estava em mim.
(Pausa)
Dentro de mim? Da minha cabeça? Do meu ouvido?
(Pausa)
Audiometria foi a decisão do médico. Seguida de impedanciometria. Exame otoneurológico. Timpanometria. Ressonância de crânio...
(Pausa)
Tenho trinta e quatro anos e nunca me passou pela cabeça que não ouviria mais as minhas músicas favoritas. Tenho trinta e quatro anos e fui a tão poucos concertos. Hoje eles se tornaram um ballet mudo de instrumentos.
Adagio
Foi aos poucos.
Cada dia um pouco menos.
Em dois anos, talvez, nada mais, disse um dos médicos.
Um outro: impossível determinar.
Tudo depende de como levará sua vida, disse outro.
Em comum: será irreversível.
Uma sentença.
(Pausa)
E foi aos poucos.
Cada dia um pouco menos.
Aproveitava cada pequeno ruído. Queria todos em minha memória.
(Pausa)
O que mais me entristecia eram as músicas que ainda não conhecia. Por isso, meu tempo, minha vida se tornou uma busca incessante por todas as músicas do mundo.
Tudo me interessava.
Cada uma delas me enchia de alegria, me abria possibilidades de leitura do mundo.
E ouvia, ouvia, ouvia, ouvia, ouvia e não ficava saciado.
Ouvia para enebriar a alma.
Ouvia para transbordar meu coração.
Ouvia para deixar em meu corpo a sensação daquele som.
Fui a todos os concertos, shows, bares com música ao vivo, lojas de discos – sim, um dia elas existiram – enquanto restava qualquer resquício de som que pudesse ser captado por mim.
Escolhi o concerto que mais gosto e o assisti diversas vezes. Decorei o movimento que cada músico fazia para extrair o som do instrumento.
Aprendi a ver a música. Cada movimento dos arcos, cada batida da percussão, cada movimento dos dedos nos instrumentos de sopro, a respiração dos músicos e a coreografia misteriosa do maestro.
O som se tornava visível, se desenha na minha frente.
Menuetto
O primeiro dia foi... não sei definir.
Estranho, intenso, amedrontador, sei lá...
Eu sabia que iria acontecer. Que estava perto. Tinha me preparado. Mas quando chegou o momento, foi... assim... petrificador.
Fiquei horas parado na porta do quarto. Não sabia para onde ir. Não conseguia andar. Não conseguia pensar. Era como se tivesse desaprendido tudo.
Busquei ouvir alguma coisa, qualquer som, qualquer ruído para me conectar com o mundo.
Nada.
Eles não chegavam até mim.
Sabia da presença deles.
Me circundavam.
Fortes, graves, agudos, longos...
Da risada das crianças na calçada, do trânsito frequente na rua, do carro do ovo, do locutor do rádio anunciando a hora...
Nenhum era captado pelos meus ouvidos.
(Pausa)
Meu primeiro dia de trevas.
(Em LIBRAS)
Algo que está em você, mas não é você: é assim que me sinto.
Assim que aconteceu, tudo perdeu o sentido. Acho que também perdi os sentidos, não me lembro direito. O desespero ganhou uma dimensão absurda.
Parece que teve uma falha no tempo. Um lapso de minutos, horas, não saberia dizer.
Allegro
Nunca doeu.
Eu só queria uma explicação.
Um motivo, algo que...
Clinicamente não conseguiam me dizer nada.
Nada também disseram os outros lugares que procurei.
(Pausa)
Culpei tudo.
Hoje, décadas depois, ainda culpo.
(Pausa)
Nunca, até então, havia percebido a beleza do silêncio.
(Longa pausa)
Tem um momento na vida em que tudo parece ruir. Vai desabando pedra sobre pedra, sem que você consiga se salvar.
É nesse momento que tudo se revela.
(Toca música. Ele canta um pedaço junto com o áudio; depois traduz em LIBRAS junto com o áudio; depois segue em LIBRAS sem o áudio)
Fade Out.
Fim.

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