As nove letras
- Andressa Dantas

- há 1 dia
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Eram quase nove da manhã.
Havia nove dias que sua mente se afogava naquela palavra de nove letras: hipócrita.
Ela ecoava nos cantos da casa, infiltrava-se nos gestos mais banais, repousava no silêncio como um móvel esquecido.
Diante do espelho, confrontava o rosto amassado com a barba por fazer e a mente ainda vagarosa em planejar o dia, quando foi tomado pela lembrança.
— Hi-pó-cri-ta.
“Que petulante”, murmurou à casa vazia.
E o eco, esse cúmplice da ausência, devolveu-lhe a constatação quase divertida: sua indignação também tinha nove letras.
Riu sozinho.
— Eu, hipócrita. Ela, petulante.
Saiu sem rumo, como quem procura uma nova rotina para preencher o espaço onde antes cabiam cafés demorados e olhares que sorriam sem pressa.
Foi à feira.
Queria adoçar o dia, quem sabe enganar a memória.
— Carambola! Framboesa! Tangerina! — cantava o feirante, como se anunciasse destinos.
Parou.
Um arrepio breve.
Nove letras. Todas.
E, de súbito, percebeu-se preso a um padrão que se repete. Ou seja: um paradigma.
Que também, por ironia quase debochada, tinha nove letras.
Comprou uma de cada.
Não por crença, dizia a si mesmo, mas por cautela. Há coincidências que pedem respeito.
Voltou para casa com uma estranha sensação de plenitude, como se carregar frutas fosse carregar respostas.
Ao entardecer, deixou-se ficar diante do pôr do sol, esse espetáculo que sempre chega sem pedir licença.
E então, inevitável, a palavra voltou.
Hipócrita.
Impetuoso, buscou sentido no número.
Leu que o nove fala de finais, de ciclos que se fecham, de uma sabedoria que só chega depois da perda, e de uma compaixão que quase sempre vem tarde.
Sorriu de lado.
Perspicaz, decretou em silêncio que era apenas coincidência.
Mas não parecia.
Eram nove da noite.
Abriu um livro.
Serviu-se de vinho.
— Petulante.
E, dessa vez, sorriu como quem entende, ainda que não aceite, que certas palavras não vêm para ferir.
Vêm para encerrar.
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