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As nove letras



Eram quase nove da manhã.

Havia nove dias que sua mente se afogava naquela palavra de nove letras: hipócrita.

Ela ecoava nos cantos da casa, infiltrava-se nos gestos mais banais, repousava no silêncio como um móvel esquecido.

Diante do espelho, confrontava o rosto amassado com a barba por fazer e a mente ainda vagarosa em planejar o dia, quando foi tomado pela lembrança.

— Hi-pó-cri-ta.

“Que petulante”, murmurou à casa vazia.

E o eco, esse cúmplice da ausência, devolveu-lhe a constatação quase divertida: sua indignação também tinha nove letras.

Riu sozinho.

— Eu, hipócrita. Ela, petulante.

Saiu sem rumo, como quem procura uma nova rotina para preencher o espaço onde antes cabiam cafés demorados e olhares que sorriam sem pressa.

Foi à feira.

Queria adoçar o dia, quem sabe enganar a memória.

— Carambola! Framboesa! Tangerina! — cantava o feirante, como se anunciasse destinos.

Parou.

Um arrepio breve.

Nove letras. Todas.

E, de súbito, percebeu-se preso a um padrão que se repete. Ou seja: um paradigma.

Que também, por ironia quase debochada, tinha nove letras.

Comprou uma de cada.

Não por crença, dizia a si mesmo, mas por cautela. Há coincidências que pedem respeito.

Voltou para casa com uma estranha sensação de plenitude, como se carregar frutas fosse carregar respostas.

Ao entardecer, deixou-se ficar diante do pôr do sol, esse espetáculo que sempre chega sem pedir licença.

E então, inevitável, a palavra voltou.

Hipócrita.

Impetuoso, buscou sentido no número.

Leu que o nove fala de finais, de ciclos que se fecham, de uma sabedoria que só chega depois da perda, e de uma compaixão que quase sempre vem tarde.

Sorriu de lado.

Perspicaz, decretou em silêncio que era apenas coincidência.

Mas não parecia.

Eram nove da noite.

Abriu um livro.

Serviu-se de vinho.

— Petulante.

E, dessa vez, sorriu como quem entende, ainda que não aceite, que certas palavras não vêm para ferir.

Vêm para encerrar.

 
 
 

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